Filmes de 2015

sexta-feira, 27 de outubro de 2017


O que gostei em O Menino que Desenhava Monstros, de Keith Donohue


Não é surpresa que a Darkside Books faz uma arte de capa formidável, mas confesso que ainda fico fascinada com dedicação e o empenho aos detalhes que a editora dispõe.
No livro, O Menino que Desenhava Monstros, a contracapa possui lindos desenhos que dramatizam a história como se estivessem sobrepostos em alto-relevo. Na capa frontal, tanto o título quanto o desenho da boca do monstro, também são em alto-relevo, com uma textura grossa, um trabalho, realmente extraordinário. Outro detalhe digno de nota são as páginas finais, onde o leitor encontra um espaço em branco para desenhar seus próprios monstros.


                                                              O Autor

Keith Donohue é um romancista norte-americano, nascido e criado na Pensilvânia, que já escreveu vários discursos para presidentes e críticas literárias para o Washington Post. Entre suas principais obras estão:
The Motion of  Puppets  2016
The Irish Anatomist: Um Estudo de Flann O´Brien 2002
Anjos da Destruição 2009
A Criança Roubada, obra mais conhecida no Brasil
O Menino que Desenhava Monstros
Donohue teve seus livros traduzidos para mais de uma dúzia de idiomas e seu último trabalho, O Menino que Desenhava Monstros já teve os direitos vendidos para o cinema.

A História, o cenário e as personagens



É um pseudo-terror psicológico que se desenvolve gradativamente. Possui poucas personagens, o cenário é uma cidadezinha costeira do Estado do Maine. O tempo dos acontecimentos é linear, começa pouco antes do Natal e se estende até o Ano-Novo.
Jack Peter é um garoto de 10 anos que sofre da Síndrome de Asperger, uma condição neurológica caracterizada por dificuldades significativas na interação social, comportamentos repetitivos e interesses restritos. O termo médico atual é, Desordem do Espectro Autista de Nível 1.
Peter ou J. P. sofre um acidente aos 7 anos, que contribuí muito para seu atual estado psicológico, adquirindo, Agorafobia, o medo da exposição à espaços abertos, tornando-se um recluso.
Aparentemente a história fala sobre o cotidiano de Jack e seus pais, Holly e Tim, o desgaste e a luta contra as limitações do filho, como encaram o problema e como lidam com as dificuldades recorrentes.
Holly tem dificuldade para aceitar e entender o que acontece com o filho, entretanto, pior do que isso, Holly tem medo de Jack, medo do que ele possa fazer com ela e consigo mesmo. As agressões, o olhar ameaçador, as visões do filho e os monstros embaixo da cama. Apesar de escassas, outras personagens se mostram  bastante importantes no decurso da história: Fred, Nell e Nick, o único amigo de Jack, o padre Bolden e a Srta Tiramaku.
Tim, o pai de Jack, se recusa a ver que o filho está a cada dia pior, o garoto passa por diversas fases em que fica obcecado por determinada atividade e sua obsessão atual é: desenhar monstros.
Os pais de Jack não dão muita importância ao passatempo do filho, mas à medida que o garoto desenhava obstinadamente, as pessoas a sua volta passam a ter pesadelos, visões e alucinações que fogem da realidade.
Mergulhar neste cenário frio e chuvoso foi bastante agradável, o autor conseguiu criar uma atmosfera funesta e edênica simultânea inserindo ainda, lendas japonesas e histórias de naufrágios na costa do Maine.


As personagens são muito bem construídas, são personagens individuais e esféricas, o autor coloca o leitor a par de todos os pensamentos e sentimentos dos protagonistas, de uma forma que fica bem explícita a realidade por trás dos pensamentos de cada um deles, tornando-os quase reais.
Muitos leitores afirmaram que o começo do livro é bastante lento, há quem conseguiu ler, apenas 70 páginas, durante um mês inteiro. Dificuldades á parte, a escrita de Donohue é bastante atual e simples, minha leitura durou apenas 10 dias, ( tudo isso???), sim, devido a outros compromissos, mas o livro criou um suspense espontâneo e envolvente logo no início que aos poucos arrastou-me para as últimas páginas, simplesmente a leitura fluiu sustentada pela bisbilhotice de leitora ávida por saber o que está acontecendo.
Não diria que este livro é de terror/horror, está mais para um drama aflitivo e angustiante tanto pela trajetória de dificuldades e superação dos pais de Jack e do próprio Jack, quanto pelas histórias de fantasmas- yureis aprisionados em seus infortúnios comoventes. A história dá muito o que pensar, as tristezas, os receios, os pesadelos de cada um, mas o mis bizarro são os monstros criando vida a partir de desenhos inofensivos, intrometendo-se na realidade lógica que conhecemos, algo bastante insólito e inusitado.
Os monstros são reais ou são só frutos da imaginação dos habitantes da casa e os que os visitam, como Nick, o garoto? Cabe a cada leitor tirar suas próprias conjecturas a respeito, mas o final é surpreendente, fiquei com ciscos nos olhos.

As Narrativas Paralelas


Quando Holly vai visitar o padre Bolden, surpreende-se com um grande quadro na parede da sala de jantar, “ O Naufrágio do Porthleven, 1849”. É importante entender que o autor fez um paralelo histórico com o navio Hannah, que afundou em circunstâncias terríveis no Golfo de São Lourenço, ali, pertinho, nas costas do Maine, cenário da história criada por Donohue.
Na verdade o enigmático quadro na parede do padre Bolden, trata-se do navio Civiet que encalhou a 300 metros a leste do porto de Porthleven, em Cornwall, na Inglaterra, durante uma tempestade. Três pessoas morreram, o acidente aconteceu em 26 de janeiro de 1884, e viajava de St. Domingo para Falmouth.

                                                   O Civiet, encalhado em Porthleven

Porthleven é um porto e não um navio, não existem relatos históricos do naufrágio de nenhum navio com este nome. Já a história do Hannah é trágica e verídica e pode ser encontrada em The Ships List, disponível em: http://www.theshipslist.com/ships/Wrecks/hannah1849.shtml.
O Hannah vinha de Warrenpoint e de Newry, na Irlanda e trazia imigrantes que fugiam da fome, quando afundou no Golfo de São Lourenço, em 29 de abril de 1849, o mesmo ano do quadro na parede do padre Bolden.
Estima-se que 180 pessoas morreram no naufrágio, mas não se sabe ao certo o número real de vítimas, pois a lista de passageiros foi perdida, todos trabalhadores agrícolas com suas famílias em busca de uma vida melhor na América.
O Hannah atingiu um recife de gelo que perfurou o casco, afundando em 40 minutos. O inexperiente capitão, Curry Shaw, de 23 anos e seus oficiais, fugiram no único barco salva-vidas disponível, abandonando o restante dos passageiros à própria sorte, no congelante Atlântico.
O Golfo de São Lourenço é foz do rio do mesmo nome e possui, 1197 Km de extensão, sendo fronteira natural entre Estados Unidos e Canadá, atravessando vários estados americanos, inclusive o Maine, desaguando no Atlântico.
Na história o padre Bolden conta que o Porthleven saiu da Cornualha em um novembro tranquilo e afundou nas costas do Maine em uma noite de nevasca de dezembro e ninguém sobreviveu ao seu naufrágio.
Esta sincronia histórica que Donohue faz dentro da narrativa é bastante criativa e fecunda, porém, deveria ter considerado mais as possibilidades de desenvolvimento criando focos secundários maravilhosos.


Outros pontos pouco explorados pelo autor são as personagens, padre Bolden e a Srta Tiramaku. A governanta possui uma aura misteriosa hermética e discutível, mas o autor não leva isso em frente. A questão do naufrágio do Pothleven, mesmo sendo de origem fictícia, e a lenda dos fantasmas yureis, contada pela Srta Tiramaku, também poderiam ter sido mais desdobrada e inseridas no contexto narrativo, mas acabam sendo relegadas a segundo plano.
Todavia, esta é uma grande história com seus personagens marcantes e um  cenário delicioso, o que faz esta leitura valer muito a pena!!!!




By Stelamaris Bagwell