Filmes de 2015

quinta-feira, 26 de outubro de 2017


Os Livros mais Indigestos da                  Literatura

Quem não se lembra da polêmica suscitada pelo romancista britânico, Nick Hornsby, no último festival literário de Cheltenham. O autor propôs aos leitores queimar numa grande pira os livros de escrita complicada da Literatura Universal. Sim, aquele livro famoso, muito comentado, citado como leitura obrigatória entre os acadêmicos. Aquele que viaja em malas, bolsas e sacolas dos leitores, por muitos lugares, mas que permanecem sem serem lidos, ou aqueles conhecidos frequentadores da mesinha de cabeceira e listas literárias.
Livros que são lidos sem entusiasmo, porque seus leitores não admitem serem vencidos por eles.
Após a manifestação inusitada de Hornsby, muitas mídias sociais passaram a divulgar mais sobre o assunto, pilhas e pilhas de artigos foram espalhados na rede. Falar abertamente sobre livros clássicos que possuem escritas indigestas deixou de ser tabu e passou a ser tema de afinidade entre os amantes da literatura, que saíram do armário e confessaram seus piores pesadelos e dificuldades com a leitura de certas obras.
Outro romancista britânico, Kingsley Amis, foi ainda mais longe, segundo o autor, a vida humana é muito breve para escolhas de leituras prolixas e complicadas. Kingsley chegou a afirmar que só leria romances  iniciados com a prévia: " Escutou-se um disparo", ou seja, que vão direto ao assunto.
É bastante interessante o ponto de vista desses homens das letras, ponto de vista que muitos leitores, meros mortais, já tiveram em algum momento de suas vidas, mas não foram audaciosos o bastante para dizer.
Muitos são os livros que rogam do leitor muita paciência e conhecimentos extralinguísticos para vencer intermináveis páginas de monólogos. Eis uma lista com alguns deles:

1) Decamerão ou Decameron, de Giovanni Boccaccio



Do grego antigo, deca, "dez", hemeron, "dias ou jornadas". Trata-se de um compêndio de cem novelas escritas pelo italiano Giovanni Boccaccio, entre 1348 e 1353. Essas novelas são contadas por dez pessoas que se abrigam da Peste Negra em uma isolada vila de Florença. São contos que vão do erótico ao trágico e possuem grande valor literário e histórico, um autêntico documento da vida social da época, escrito em vernáculo florentino. A obra é um marco literário que narra a moral medieval e prenuncia o realismo italiano.
Mas o problema começa logo na escrita de Boccaccio. O autor usa termos e comparações da época, o que pode soar meio estranho e meio sem sentido para o leitor do século XXI. As histórias contadas pelos protagonistas vão se tornando monótonas pela forma detalhista de como são narradas, apesar da temática ser excelente. Mesmo o Decamerão tendo influenciado grandes autores como Voltaire, Moliérie, Martinho Lutero, Antônio Vivaldi, Alfred Tennyson, dentre outros, o leitor contemporâneo precisa fazer uma força sobre-humana para vencer as 582 páginas do livro.

2) Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski


Sem dúvidas, Dostoiévski foi e continua sendo um dos maiores romancistas da História da Literatura. Fundador do existencialismo, profundamente elogiado por Walter Kaufman, as obras do autor são um tratado completo sobre a aniquilação, a humilhação e a autodestruição humana. Temas como assassinato, suicídio, loucura e inveja, permeiam a escrita do mestre russo, o chamado "romance de ideias", mas apesar de ser aclamado e descrever as patologias sociais como poucos, Fiódor escreveu um livro que poucos leitores conseguem chegar até o final. Sim, Irmãos Karamazov, escrito em 1879, elogiado por Freud como " a maior obra da história", é um livro extenso e difícil. Extenso por narrar, detalhadamente a biografia de cada personagem, bem como, a filosofia de vida e o estado de espírito de cada um. O próprio narrador se desculpa várias vezes durante a narrativa com os leitores por ser prolixo. O livro passa de 700 páginas. A história é simples, um pai é assassinado pelo filho bastardo, ponto. Mas Dostoiévski, consegue encher páginas e páginas de monólogos psicológicos e espirituais, e mesmo que tais discursos tenham agradado a muitos eruditos ao longo do tempo, os leitores atuais, torcem o nariz.

3) Guerra e Paz, de Leon Tolstói


Outro grande nome da literatura russa é lembrado quando se fala em livros complicados. Leon Tolstói, é constantemente citado como grande expert em "encher linguiça", muitos leitores são até sarcásticos em relação a Guerra e Paz e quando perguntados por que não conseguiram ler a obra de Tolstói, afirmam: " apesar de ter lido muito, nem cheguei ao primeiro disparo da guerra". Outros preferem ver a versão cinematográfica e deixar a leitura para os heróis. Tolstói escreveu Guerra e Paz quando se recuperava de uma fratura ocasionada pela queda de um cavalo, o que pressupõe, um tempo bastante longo para relatar a invasão napoleônica ao território russo. Tolstoí desenvolve uma narrativa fatalista da História, e apesar de criar um novo gênero de ficção e fazer muito sucesso quando publicado em 1863, hoje, poucos leitores conseguem concluir a leitura do livro. Mas o fato mais inusitado sobre Guerra e Paz, foram as centenas de vezes em que a esposa do autor passou o manuscrito a limpo, haja dedicação e paciência.

4) A Divina Comédia, de Dante Alighieri


Definitivamente este livro não é para qualquer leitor. Motivo: além da escrita erudita, o leitor necessita ter um prévio e sólido conhecimento histórico e enciclopédico. O poema escrito por Dante, no século XIV, consumiu quase toda a vida do autor e traça um panorama ácido e pessimista da sociedade da época. Dante manda, literalmente,  muitos personagens reais para o inferno. Sabe-se que o autor foi exilado de Florença após divergências e disputas políticas, e que morreu no exílio sem nunca ter retornado à sua cidade natal, o descontentamento e a tristeza com o exílio foi o escopo no qual o autor edificou sua obra-prima, com a punição dos corruptos e a redenção dos humilhados. Ninguém duvida da da importância literária e do peso histórico da obra de Dante, entretanto, muitos leitores não vão além do Inferno, a primeira parte do poema.

5) Moby Dick, de Herman Melville


Costuma-se dizer no meio literário que os leitores de Moby Dick quando se deparam com a extensão e a complexidade da narrativa, não compartilham 
do mesmo entusiasmo para a leitura, como Ahab em caçar a baleia branca. As sinopses e resenhas de Vlogs sobre o livro tem atraído a curiosidade de muitos leitores, principalmente após o lançamento do longa-metragem, No Coração do Mar, baseado no livro de Nathaniel Philbrick, e estrelado por Crhis Hemsworth, no papel de Owen Chase, o primeiro oficial do Essex, o baleeiro afundado por um grande cachalote branco. A tragédia do Essex que naufragou em 1820, deu a Melville todo o script para escrever seu livro. Melville foi um lobo do mar, conhecia perfeitamente todo o " modus operandi" para se caçar baleias, assim como, a rotina dos dias em alto-mar e o nome de cada peça do navio. Exatamente por esse motivo, muitos leitores dizem que o autor matou o livro, Melville coloca todo seu conhecimento de forma detalhada no enredo. Apesar da história continuar sendo fantástica, existem casos de leitores que levam de 2 a 4 meses para finalizar a leitura de mais de 500 páginas.

6) As Aventuras do Bom Soldado Sveijk, de de Jaroslav Hasek / Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes


O mesmo bufo de tédio e desinteresse nas salas de aula checas e espanholas. E o pior é que ambos são emitidos pela obrigação de ler dois dos romances mais divertidos e delirantes da história. Duas histórias pitorescas com dois anti-heróis absolutamente inesquecíveis que carregam o problema de ser o clássico mais aplaudido de ambos os países. Seu problema? Obrigar alunos imberbes com os feromônios disparados a mergulhar em suas numerosíssimas páginas para transformá-los em “um livro de La Mancha – ou de Praga – do qual não quero me lembrar”. No entanto, quando lidos mais tarde, são mais viciantes que um saquinho de pipocas ou que a série de TV com maior audiência.

7) Paradiso, de José Lezama Lima


As mais de 600 páginas desta espécie de romance de aprendizagem, exuberante em sua prosa como uma árvore repleta de frutos, são um inferno para muitos leitores. Muitos resolvem abordar a formação do poeta José Cemí aconselhados por Julio Cortázar, um autor fundamental para muitos adolescentes, do qual tentam devorar todas suas pistas, mas a linguagem personalíssima e o longo alcance afugentam uma altíssima porcentagem do público de um dos principais romances em castelhano do século XX. É mais curioso ainda quando se sabe que o autor é cubano, já que os cubanos geralmente são pouco dados a introspecções. Na narrativa latino-americana, apesar do recente culto global a Roberto Bolaño, também se costuma brincar com 2.666, do escritor chileno, que não alcança esse número de páginas, mas tem mais de mil.

8) A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, de Laurence Sterne


Foi publicado por volumes durante oito anos. O autor morreu antes que se publicasse como romance; de fato, muitos especialistas consideram a obra inacabada depois de tantas páginas. O livro pretende ser a autobiografia do narrador, que se perde em digressões e rodeios infinitos e hilários, mas não adequados para todos os gostos. É uma peça fundamental da narrativa moderna e cômica, mas o fato de que o protagonista não nasça até o terceiro volume não ajuda muita gente a aguentar manter o livro nas mãos. Talvez prefiram a adaptação de Michael Winterbottom, embora seja uma adaptação pouco fiel, como não poderia deixar de ser.

9) O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon


No episódio A Pequena Garota no “Big Ten”, da 13ª temporada de Os Simpsons, a pequena Lisa quer se fazer passar por estudante universitária. Em uma cena, bisbilhota o armário de uma estudante e descobre este grande romance. A conversa das duas é a seguinte: “Você está lendo O Arco-Íris da Gravidade?”, pergunta-lhe a pequena Simpson. “Bom, estou relendo”, responde a estudante. A brincadeira, e o fato de que apareça nessa série, resume até que ponto esse e outros romances do autor mais misterioso da literatura americana alcançaram o status de literatura ilegível. Não para todos, claro. É famoso o caso do professor George Lavine, que cancelou suas aulas para se recolher durante três longos meses de 1973 com o único objetivo de devorá-lo. Quando saiu de sua reclusão, afirmou que Pynchon era o melhor que havia acontecido para as letras americanas do século XX.

10) Paraíso Perdido, de John Milton


Este poema épico escrito pelo erudito inglês John Milton em 1667 em dez cantos, narra a saga dos anjos caídos após a rebelião no céu e a queda do homem através do ardil de Satanás. Assim como na Divina Comédia, de Dante, a obra de Milton também é carregada de alusões históricas, literárias, além de citações bíblicas, que é a base do poema. A escrita de Milton também é outro fator complexo, é extremamente erudita com termos e vocábulos conhecidos apenas por leitores assíduos de dicionários. Um fato curioso sobre Paraíso Perdido, foi a forma como o poema foi escrito. John Milton ficou completamente cego no decorrer da escrita do livro e ditou quase metade do poema para que suas filhas e seus funcionários o concluíssem, o que torna ainda mais brilhante a engenhosidade e a criação literária do autor. É uma pena que muitos leitores não levam isso em conta.

Existem muitos outros livros que não entraram nesta lista mas que possuem as mesmas características e graus de dificuldades citado pelos leitores. Mesmo com tanta reclamação, tais obras continuam sendo referência em grandiosidade literária, são os clássicos, que permanecem com toda sua glória, mesmo com a insensibilidade dos mortais.