Filmes de 2015

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Quão maravilhoso é O Velho e o Mar?


Esta não é apenas uma história de pescador, uma história recorrente. É  a história sobre um tipo de ser humano extinto, que já não existe mais nos tempos modernos, aquele ser humano que sabe seu devido lugar na natureza e no universo.
Ernest Hemingway sentiu-se inspirado ao se deparar com o remanescente deste tipo de ser humano que ainda vivia em harmonia com a natureza: os pescadores. Este confronto entre homem e natureza já bastante antigo na literatura e sempre rendeu boas histórias, como Robinson Crusoé, A Lenda de Tarzan, Moby Dick, narrativas que sempre mostravam o homem como um ser superior, astuto, corajoso. Poucos livros colocaram o homem numa posição tão pequena, mas ao mesmo tempo tão nobre quanto O Velho e o Mar, de Hemingway.
Santiago, o protagonista, é um homem rude, simplório, iletrado, pobre, sozinho no mundo, exceto pelo garoto que nutre por ele um profundo respeito e carinho. Santiago é um personagem fascinante, apesar de ser iletrado, rude e simples, ostenta uma sabedoria extraordinária, iluminada, possui uma c insignificância diante da natureza, e essa insignificância é consciente, não se deixa iludir por ser um ser humano, por ser um homem, por achar que tem mais direito ou inteligência.
Mas, a maior complexidade deste personagem é a impassividade, ele é côsncio de que precisa fazer algo, ele não se conforma com tudo, ele tem ambições.
Santiago quer provar que seu valor, sua dignidade pescando um grande peixe por conta própria, mesmo sendo um homem velho. Não para comê-lo, nem para vendê-lo, mas pela grande satisfação de conseguir pescar um ser muito mais grandioso e esplêndido que ele próprio.
Santiago não é superior, ele acredita que precisa merecer o direito de matar um animal tão fantástico, precisa ser digno, lutar com bravura e lealdade.
O equilíbrio e a paciência de Santiago são lições de vida, passam-se oitenta e quatro dias sem que ele pegue nenhum peixe, mesmo saindo todos os dias para pescar. No 85º dia, depois de recusar qualquer ajuda do garoto, ele sai mais um dia com seu barco em busca de seu objetivo.
É interessante que o personagem dialoga consigo mesmo, ora admoestando-se, ora exortando-se em relação ao seu propósito, em nenhum momento se torna cético ou pessimista diante das condições que se interpõe no caminho de seu desígnio.
É este círculo de esperança, de expectativa, de felicidade temporizada, que vai edificando a dignidade do personagem:

" Não tem importância, pensou. Posso sempre voltar guiado pelo clarão de Havana. Ainda há mais duas horas até o sol se pôr, e talvez ele venha ao cimo antes disso. Se não vier, talvez venha com a lua. Se também não vier, talvez venha com o nascer do sol."



Até que finalmente, um peixe de mais de cinco metros de comprimento morde a isca de Santiago, maior que seu próprio e será uma verdadeira batalha para ele consiga vencer este enorme peixe. Mas, Santiago não quer uma vitória desleal, uma vitória que ele não mereça, ele quer uma luta justa e não usa armas, suas únicas ferramentas são bastante rudimentares: a linha, o anzol, as próprias mãos e as forças que lhe restam, além da própria paciência.
O Velho e o Mar foi e continua sendo um livro revolucionário, rendeu a Hemingway o Premio Nobel de Literatura, é considerado um dos mais importantes livros do século XX,  e o leitor experimenta sentimento contraditórios ao lê-lo. Santiago cativa o leitor de uma forma singular e sublime, não há como não reverenciá-lo por sua honestidade e senso de justiça. O próprio nome, Santiago significa se auto-conhecer no sofrimento e o mar é o local apropriado para se interiorizar, pois representa a travessia da vida, é um lugar tranquilo que o leva a refletir e a recordar.
O peixe é o grande desafio, talvez o último de sua vida, o símbolo e o resgate de sua capacidade, da luta e da persistência.
Santiago enfrenta momentos de grande sofrimento e intensa satisfação, há uma associação metafórica entre a batalha com o grande peixe que representa a grande peleja rumo ao seu maior objetivo e os peixes menores que o alimentam dando-lhe a sustentação necessária para continuar.
Os pequenos peixes são os estímulos de conforto e alegria diante dos grandes infortúnios da vida, um bálsamo bem vindo que faz o ser humano nunca perder a esperança ao enfrentar riscos maiores que suas próprias forças.!!!!!

Há uma maravilhosa animação de O Velho e o Mar, feita pelo russo Alexander Petrov, que ganhou o Oscar de melhor animação curta-metragem em 2000. É uma obra de arte, com um visual impressionante, que consegue contar a história do livro sem perder a essência e a emoção.




by Stela Bagwell